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Durante a madrugada, fui acordada pelo toque incessante de meu celular. São 2 horas e 30 minutos e uma aluna de um determinado curso de graduação de universidade local suplica que eu faça a revisão de seu TCC até, no máximo, 8 horas da manhã. Vai defender o documento em dois dias, mas ele foi devolvido pela banca porque a redação não está boa. São 175 páginas de um texto sofrido…
Erros comuns de pontuação (principalmente uso de vírgulas e ponto parágrafo) parecem menores quando os assuntos são crase, concordância verbo-nominal e regência. Há não paralelidade textual, falta de coerência e de coesão e falta a estrutura básica em cada capítulo. Entro em pânico, não pelos erros apresentados mas pela realidade apresentada: professor orientador teve acesso ao texto durante doze meses…
Levanto-me, tomo um café e me planto diante do meu computador, onde o documento já veio em forma de anexo de e-mail. Peço mais tempo e ela me oferece mais duas horas apenas. Preparo duas cópias – uma na qual a revisão será indicada e outra limpa, fácil de ser enviada à referida banca.
Faltando meia hora para devolução, detectei que, em cada página havia em média 30 erros e que não foi usada a terminologia própria da área focalizada. Nova maratona, nova formatação e paginação. Entreguei com meia hora de atraso o serviço solicitado e pedi que, se me indicasse para outras pessoas, começasse a mandar os textos ainda na introdução do documento.
Essa e muitíssimas outras experiências me apresentam a triste realidade da língua portuguesa no Brasil: está em coma, na UTI. Quem busca o recurso do revisor é quase sempre alunos da graduação e da pós-graduação. Para eles escreverem desse modo, infere-se que quem adentra a universidade hoje é indivíduo alfabetizado apenas. A falta de letramento se apresenta de forma constante, não através das correções estruturais mas do jeito que o aluno utiliza para falar, para escrever, para expor sua opinião. O volume de plágio é imenso e, da mesma forma, o acadêmico não consegue compreender a mensagem que determinados autores lhe transmitem. A incapacidade de inferência de informações e de mudança de vocabulário é facilmente perceptível na revisão.
Alguém pode questionar: o que vale mais, a excelência profissional ou a boa proficiência linguística nativa? Eu afirmo que, mesmo um excelente profissional, perde excelentes oportunidades na vida porque não consegue expressar sua opinião e seus projetos para o qualificador.
Preocupa-me a desatenção dos orientadores que permitem a escritura de um documento acadêmico com severos danos linguísticos e interpretativos. Eles sabem que revisores existem para auxiliarem seu orientando, mas se esquecem de que revisores nem sempre estarão a postos em momentos críticos da vida do graduando.
Para concluir, aponta-se a necessidade do letramento ainda nas creches para que o educando chegue à pós-graduação sabendo se expressar na escrita e na fala e se tornando um indivíduo completo.

Como revisora de teses, dissertações, TCCs e artigos, concluí que nossa língua, um dos símbolos da nação, está na UTI. Pessoas são alfabetizadas mas não letradas…


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